Uma brasileira e um Nokia C3 viajante

12 de agosto de 2012, eu, Naiara, mineira e então moradora de Niterói, estudante de jornalismo da UFF, desembarcava em Toronto no Canadá, cheia de sonhos e incertezas, e com um Nokia C3 na mão. Pois é, um Nokia C3 que para mim era o supra sumo da tecnologia, mas que para os meus amigos intercambistas era um objeto vintage. Na época, eu nem desconfiava disso e amplificava as piadas com meu celular feitas por eles, até porque não sabia muito sobre a potência dos smartphones que eles ostentavam. Eu nunca tinha usado um, e nem tinha a curiosidade de usar, sobretudo porque no Brasil eles ainda não eram muito populares.

Contextualização feita, cinco anos depois tenho a clareza de como as minhas experiências de aprendizado, cidade e sociabilidade foram diferentes das dos meus amigos, justamente pela mediação do meu querido Nokia C3 (que continua sendo usado quando estou em Minas, e está em perfeito estado!).

Learning English!

O objetivo principal do meu intercâmbio era “improve my English”. Frase feita e repetida nos primeiros dias. Porém, logo percebi que aquela experiência era muito mais do que melhorar e aprimorar outra língua. Os meses que seguiram foram de imersão profunda em outras culturas e de conhecer como as outras nacionalidades lidavam com aquela experiência. Brasileiros e latinos, por exemplo, têm dificuldades similares de pronúncia, o tão usado “have” em nossa pronúncia vira “HAVIIII”. Os japoneses, por sua vez, não possuem o “r” no alfabeto, que é tão presente na língua inglesa. Assim, um simples “are” pode ser uma missão enorme para eles.

Dentro de sala de aula, o aprendizado era mediado por suportes tecnológicos de materialidades diferentes. Eu usava o famoso e velho dicionário, que tenho desde o ensino médio, enquanto TODOS os meus amigos japoneses carregavam seus dicionários eletrônicos (absolutamente todos!). Abismada com aquela tecnologia, descobri que era item básico nas escolas japonesas, por isso todos eles tinham. Os outros colegas, entre eles minhas amigas turca e espanhola, usavam o iPhone 3s (eu até aí nem sabia o que era um iPhone. Isso é sério) e os coreanos ostentavam os seus Samsungs, mostrando o orgulho da tecnologia local (eu até hoje não aprendi a falar Samsung com a pronúncia correta! Sim, aqui no Brasil aportuguesamos a pronúncia de Samsung). Após alguns dias, percebi que meu aprendizado acontecia de forma muito mais rápida  em relação a alguns colegas, um dos motivos era a não praticidade de abrir o dicionário toda vez que me deparava com uma palavra nova e acabei me forçando a entender tudo aquilo a partir de um contexto.

     

Explorando a vida cultural Canadense!

Se em sala de aula eu era a garota do dicionário, no quesito social quem comandava os eventos era eu. Vamos sair? Jantar? Dançar? Viajar? Aproveitar essa vida linda! Sim, sim, sim e sim! Os amigos topavam tudo! Com os orientais descobri que não existe programa melhor que o Karaokê. Fiz meus amigos cantarem “Ai, se eu te pego” mesmo não gostando tanto da música, mas a minha alegria era vê-los falando português (e foi fácil, pois 11 em cada 10 baladas de Toronto tocavam essa música). Com os russos descobri que ressaca é para os fracos, eles bebem vodka na garrafa mesmo. Os coreanos me surpreenderam também com o amor pelos etílicos. E eu quebrava o paradigma como a brasileira que não bebia, mas não decepcionava nas pistas de dança.

Nesse quesito, o meu Nokia também atravessava. Tínhamos o costume de ir todos juntos para os eventos, seja ele qual fosse, de churrasco no parque até uma noite em casa noturna. Porém eu não tinha, o então desconhecido por mim, WHATSAPP! Sim, eu era a garota sms. Não só a questão tecnológica incomodava os amigos, mas eu era adepta do que eles chamavam de “brazilian time”: marcava às 8pm e chegava 8:35pm. Ou seja, abusava da paciência dos amiguinhos, que me esperavam mesmo assim! Afinal, não tenho whatsapp, não tenho educação, mas tenho carisma, e no âmbito da sociabilidade eu venci com esse único quesito!

A cidade no boca a boca

Este último ponto será dedicado exclusivamente aos canadenses. Isso porque até hoje não conheci um conjunto de pessoas da mesma nacionalidade que seja tão educado, e generalizo, pois até o momento nenhum deles fugiu desse estereótipo. O meu amado Nokia C3 não me dava a possibilidade de usar Google Maps nas ruas da cidade. Assim, quando o meu inglês começou a melhorar, eu apelava para a famosa e ancestral informação na rua. Acontece que eu descobri que pedir uma informação para um canadense é dar a ele a missão de que você chegue seguro e a tempo ao lugar que você procura. Eles param o que estão fazendo para te ajudar! É foda, digo, complicado meus amigos, tentem fazer isso no Canadá e se sintam os piores anfitriões do mundo. Assim, a minha experiência de cidade no boca a boca me permitiu uma interação que muitos dos meus colegas intercambistas também não tiveram.

Volta ao Brasil

Em junho de 2013, já no Brasil, comprei meu primeiro smartphone, um Samsung Galaxy 3 mini, e aí os mínimos detalhes daquela vivência começaram a fazer mais sentido para mim. A partir daí percebi como aqueles aparelhinhos que os amigos intercambistas não desgrudavam davam mais praticidade e otimizava algumas questões e âmbitos da vida. Porém, ao mesmo tempo, o seu uso, em alguns momentos, limitava a vivência de outros aspectos, como o contato cara a cara e o diálogo presencial. Hoje, não vivo sem meu smartphone e as tecnologias se tornaram interesse central de pesquisa. A semente foi plantada em terras canadenses e na minha interação com o mundo, a partir da amizades que carrego até hoje!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *