“Os games moldaram as tecnologias digitais que temos hoje”, observa a pesquisadora Letícia Perani

Se jogar videogame para muitos é diversão, para a doutora em Comunicação pela Uerj, Letícia Perani, é objeto de pesquisa (e, claro, divertimento nas horas vagas). A professora assistente do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (IAD/UFJF) lidera o grupo Ciberludens Grupo de Estudos do Lúdico Digital, através de pesquisas teóricas e trabalhos práticos nas áreas de mecânicas de jogo (em inglês, gameplay – estudo das regras do jogo e da interação jogo/jogador) e concept art (desenvolvimento artístico de personagens, cenários, itens etc.). Em entrevista ao Cibercog, Letícia fala sobre a importância dos jogos digitais na atualidade e sobre o mercado de trabalho no Brasil. Em sua tese de doutorado, ela arrisca dizer que “os games moldaram as tecnologias digitais que temos hoje”.

Letícia Perani (de vermelho, no Centro) com alunos no SBGames 2016

– Por que os jogos digitais ganharam tanta importância na atualidade?

As atividades lúdicas sempre fizeram parte de qualquer manifestação social, artística/cultural e comunicacional da humanidade, conforme Johan Huizinga disserta em Homo Ludens. Os games são apenas a digitalização dessas atividades, uma das primeiras implementações úteis da tecnologia digital para fins não-militares – a partir do momento em que a Cultura passa cada vez mais pela mediação das mídias digitais, nada mais óbvio do que essa maior visibilidade que os games também ganham, já que os jogos eletrônicos são manifestações muito próprias das questões comunicacionais que agora emergem: interatividade, imersão, complexidade de conteúdo. Na minha tese de doutorado, eu arrisco uma hipótese ainda mais ousada: os games moldaram as tecnologias digitais que temos hoje.

Oficina de criação de personagens com a Profª. Drª. Eliane Bettocchi, maio de 2017

– O que o Instituto de Artes e Design da UFJF oferece para quem deseja trabalhar na área de games?

Aqui no IAD/UFJF, não temos um curso específico de design de jogos, mas temos várias iniciativas de estudo de atividades lúdicas tradicionais (RPGs, jogos de tabuleiros, LARPs) e digitais. Mais especificamente, temos três professores que trabalham com essa temática: eu (games), Eliane Bettocchi (RPGs) e Cláudio Fajardo (boards).

Eu tenho um grupo de pesquisa (Ciberludens – Grupo de Estudos do Lúdico Digital) que trabalha com pesquisas teóricas e trabalhos práticos nas áreas de mecânicas de jogo (em inglês, gameplay – estudo das regras do jogo e da interação jogo/jogador) e concept art (desenvolvimento artístico de personagens, cenários, itens etc.). Desde abril, temos uma parceria com o Laboratório Interdisciplinar de Linguagens – LiLi, da Eliane Bettocchi, e estamos oferecendo atividades conjuntas. A Eliane ainda tem uma disciplina na Licenciatura em Artes Visuais que trabalha com usos educativos de RPGs e boards. 

2ª etapa da oficina de criação de personagens, com a participação do Dr. Carlos Klimick (LiLi/UFJF), maio de 2017

– Quais são as dificuldades encontradas pelos pesquisadores de games no Brasil?

Primeiro, um certo preconceito que ainda existe em relação aos jogos digitais como objetos válidos de pesquisa, o que inviabiliza, por exemplo, pedir consoles e jogos em editais de pesquisa – se o parecerista não gostar/entender da área, vai achar que são gastos fúteis. Não temos muitos dos livros essenciais da área traduzidos, e isso impede que pesquisadores sem conhecimento de inglês atuem na área. As outras dificuldades se referem aos problemas gerais de pesquisa no Brasil: cortes de verba, falta de infraestrutura etc. Temos ainda um longo caminho pela frente.

Palestra na ESPM Rio, maio de 2016
Instagram do grupo de pesquisa – @designeculturadosjogosonline

– Quais são as áreas mais requisitadas no mercado de trabalho?

Além das áreas técnicas de programação, que são sempre muito requisitadas, há um crescimento na demanda de artistas voltados para concept art, desempenhando trabalhos como desenho 2D, modelagem 3D, concepção visual, animação… habilidades que são estudadas aqui no IAD.

– Como funciona o trabalho do projeto Design e Cultura de Jogos na UFJF?

O Design e Cultura era um projeto de extensão vinculado à Pro-Reitoria de Extensão da UFJF que tinha o objetivo de divulgar para o público externo conteúdos sobre game design, trabalhando especialmente com postagens em redes sociais das atividades produzidas pelos nossos alunos. Nosso vínculo com a PROEX/UFJF terminou em 31 de maio deste ano, mas continuamos a desenvolver e divulgar nossas atividades, porém dentro do grupo Ciberludens. Para o segundo semestre, queremos também desenvolver atividades de estudo de teoria do lúdico, além de estudos de fabricação de roupas e acessórios para cosplay.

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