“O jogo não é apenas lúdico, mas estratégico”, avalia Viktor Chagas

Com doutorado em História, Política e Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas, o pesquisador e professor Viktor Chagas não poderia imaginar que um dia estudaria memes na internet. O fenômeno bem-humorado da web é objeto de pesquisa de um grupo liderado por ele desde 2011 no Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. O interesse dos alunos foi tamanho que, em 2015, o grupo criou o #MUSEUdeMEMES on-line. Em entrevista ao Cibercog, ele fala sobre essa expressão cultural: “no Brasil, os memes têm servido fundamentalmente para escoar uma farta produção de opiniões através do recurso ao humor e à ludicidade”, diz.

Indagado sobre a função dos jogos, Chagas vê algo além da diversão e extremamente atual: “tenho me interessado já há algum tempo por explorar a perspectiva da política como jogo, aliando uma reflexão sobre a performance política à dimensão mais clássica da teoria dos jogos e da escolha racional”. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Qual a importância dos estudos sobre mídias digitais na atualidade?

Creio que a importância desses estudos reside no impacto em diferentes campos disciplinares que essas mídias são capazes de provocar. Não se trata apenas de tornar mais veloz ou multidirecional a disseminação da informação, essa é só a pequena ponta do iceberg. As mídias digitais trazem novos efeitos no campo da governança eletrônica, do direito autoral, da economia criativa, da criação artística, da preservação do patrimônio digital, da mobilização social e do ativismo político, e em tantas outras searas. Entender como esses fenômenos se desenvolvem é fundamental para refletirmos sobre os efeitos que experimentamos na vida cotidiana.

Em geral, há o senso comum de que os jogos são apenas fontes de divertimento, lazer. Quais são as características do jogo além do lúdico?

Gosto de pensar os jogos para além da sua concepção material mais comum. Tenho me interessado já há algum tempo por explorar a perspectiva da política como jogo, aliando uma reflexão sobre a performance política à dimensão mais clássica da teoria dos jogos e da escolha racional. O jogo político não é um jogo sobre a política ou que se utiliza de uma narrativa política, mas o entendimento de que toda questão política é, de uma forma ou de outra, jogada. E, nesse sentido, o jogo não é apenas lúdico, mas estratégico, performático, e implica em árdua negociação entre os atores, com base em regras que ora são seguidas e ora são quebradas.

Como é o curso na UFF para quem quer se especializar nesse campo?

O curso de graduação em Estudos de Mídia, na UFF, é uma formação que aposta na interdisciplinaridade e na autonomia do aluno para moldar sua própria formação de acordo com seus interesses. Há um quantitativo pequeno de disciplinas obrigatórias previstas na grade curricular e uma enorme oferta de disciplinas optativas, algumas delas voltadas para o universo dos games.

São disciplinas que tratam, em particular, da história dos games, do design de games, dos jogos de realidade alternada, dos jogos indie, e muito mais. Os alunos podem também conjugar disciplinas distintas em favor de seus interesses. Assim, por exemplo, um aluno que pretenda trabalhar com trilhas sonoras em jogos eletrônicos podem cursar disciplinas que articulam os eixos de linguagem e produção sonora e design de games.

No caso dos memes, qual a importância de se compreender esse fenômeno?

Os memes são uma nova forma de expressão cultural, um novo gênero midiático, nativo das mídias digitais ou pelo menos fortemente alavancado por elas. Eles se materializam como conteúdos tidos como frívolos e pouco substanciais, mas na realidade ajudam a reconfigurar uma experiência de sociabilidade e compartilhamento cultural. No Brasil, os memes têm servido fundamentalmente para escoar uma farta produção de opiniões através do recurso ao humor e à ludicidade.

Quais as principais características dos memes brasileiros? Há alguma diferença para os gringos que seja marcante?

Os memes produzidos por brasileiros ou que circulam entre nós atuam em dupla vertente. De um lado, se caracterizam por um humor sofisticado, repleto de referências e remissões a produtos midiáticos e da cultura do entretenimento, são piadas que marcadamente exploram deslocamentos de sentido e ambiguidades. De outro, temos também memes absolutamente sérios, que funcionam como peças de militância e se estabelecem a partir de redes de solidariedade, ancoradas em enquadramentos de ação individual e uma “política de hashtag” — é o caso dos múltiplos memes que carregam mensagens feministas que vimos surgir nos últimos meses.

 

De uma forma ou de outra, os memes fortalecem um sentimento identitário a partir de um referencial cultural compartilhado, ajudam a propagar representações satíricas da realidade, e fomentam um cenário de disputas por visibilidade entre sujeitos que procuram performar a melhor piada. Em outros países, temos cenários diversos. Na China, por exemplo, os memes trabalham no sentido de burlar ou contornar a censura estatal. Já nos Estados Unidos, o humor presente nesses memes de internet frequentemente desafia os limites da liberdade de expressão, provoca, flerta com o politicamente incorreto.

 

Fonte:

https://motherboard.vice.com/en_us/article/bmvd74/china-meme-face-a-biaoqing-field-guide
https://qz.com/867777/the-memes-that-took-over-chinas-internet-in-2016-speak-to-the-countrys-power-and-fragility
http://blog.tutorming.com/expats/top-six-chinese-social-media-memes-of-2016
http://www.museudememes.com.br/o-museu-de-memes/expediente/
https://br.pinterest.com/pin/95631192064302084/

*Junho 2017.